Escrita

Hoje queria escrever sobre o último livro que li: A Note to Self de Samara O’Shea. Gosto muito de ler diários. Gosto imenso de os escrever também. De vez em quando leio aqui ou a li sobre as vantagens de escrever um diário. É engraçado que me identifico sempre quando as leio. Acho que a expressão mais certa para descrever os efeitos de uma forma geral é a de “centrada.” Isto é, claro, uma tradução literal do termo inglês centred. Mas no fundo é isso que se passa. A minha visão sobre as coisas depois de a escrever torna-se mais lúcida, tudo se torna mais claro. As prioridades ficam mais bem arrumadas, a perspectiva sobre tudo e todos é mais reflectida. No fundo, a ordem impera sobre o caos.
E ordem para mim sempre foi algo essencial. Sempre disse que o facto de eu ser uma pessoa ordenada não era uma virtude mas sim uma defesa contra a dispersão, a distracção extrema, a sensação de me afogar no mar de coisas que me captam a atenção para todos os lados.
Aconteceu-me já, uma ou outra vez, entrar num estado de depressão que normalmente está relacionado com um cansaço físico extremo e um stress descomunal. É a sensação de não conseguir dar conta do recado. Só que neste caso o recado é a vida.
Mas desde pequena que quis manter um diário. De vez em quando lia um, e imediatamente ia comprar um caderno novo, de capa dura ou de capa mole, de argolas, ou sem elas, colorido ou de uma sobriedade extrema. Provei de tudo. Inevitavelmente ficaram abandonados a meio. Lembro-me de ter deitado fora uns que chegaram a ter uns três volumes e meio. Tenho imensa pena de ter perdido os inúmeros registos de momentos da minha vida. Mas a diversidade de cadernos fez-me sempre confusão. Eu ambicionava por um meio que fosse homogéneo, fácil de agarrar no todo, fácil de arrumar, fácil de aceder. No fundo, o que eu precisava era de um diário digital. O advento dos portáteis leves, e outros meios de escrever ainda mais leves como os tablets e os smartphones, foi o melhor que me poderia ter acontecido.
Muita gente advoga a escrita à mão. A própria Julia Cameron, no seu The Artist’s Way diz que se devem escrever as páginas matinais à mão. Não há muito li que as sinapses cerebrais são em muito maior número quando se escreve à mão comparativamente com as que se geram quando se dactilografa. Mas comigo isso não resulta. Eu pego numa caneta e fico a olhar para o papel e a sensação é que o “pessoal” que trabalha no cérebro pára imediatamente, fazem greve ou encerram para almoço. Imagino-os a largar imediatamente o trabalho, de braços ao lado do corpo. O cérebro fecha, umas portas blindadas cerrarem-se e tudo o que de lá poderia sair fica preso sem possibilidade de fuga.
Já em frente ao teclado é precisamente o contrário. As ideias fluem a uma velocidade enorme, parece um rio rápido e de grande caudal. A dificuldade é que nem sempre as mãos acompanham esse ritmo. Mas vão tornando-se mais ágeis com a prática. Sempre foi assim. Já nos tempos primórdios do computador pessoal eu reparei que pensava melhor em frente ao teclado Assim que pude abandonei o papel. Na faculdade fazia os meus trabalhos directamente no computador. Ferramentas com o outline e os mindmaps pareciam vindas do céu expressamente para mim. E nunca gostei de “passar coisas a computador.” Qual passar? Só a ideia me fazia doer as costas e vir lágrimas de sono aos olhos. A facilidade de fazer rascunhos, notas, e poder rearrumar as ideias é algo que sempre me agradou. Não admira que goste tanto de trabalhar com o computador. É uma máquina fabulosa pela qual estou imensamente grata.
E este texto, que começou como uma crítica (no sentido de review) ao livro Note to Self, de repente tornou-se numa apologia do computador pessoal, em especial deste meu MacBook Air, tão leve e rápido.
O livro aborda uma diversidade de tipos de escrita, ilustrados com excertos de diários da própria autora e de outros autores famosos pelos seus escritos mais íntimos.
Os capítulos do livro abordam temas como a variedade de diários; os diários especializados; a expressão de sentimentos diversos; a escrita de cartas que não se enviam; as interrogações sobre o universo e a vida; as correntes de consciência, sonhos e subconsciente; a expressão pública de opiniões (blogs); a escrita como forma de despejar sentimentos como a ira, a inveja e outros que tais, como forma de esfriar um pouco antes de agir intempestivamente; as listas de objectivos e ambições pessoais; a expressão explícita do eu e por aí fora.
De muito mais fala a autora mas não quero ser exaustiva aqui. Este texto já vai longo. É engraçado que é mesmo um tema de que gosto. Escrever é bom e escrever sobre a escrita é mágico, as palavras multiplicam-se, correm e atropelam-se. Não apetece pôr travões. Mas tem que ser. A vida está à espera.

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One thought on “Escrita

  1. Tirando o de Adrian Mole, acho que nunca li diários. Também não tive o hábito de os escrever, apesar dos constantes incentivos do meu pai. Talvez por serem em papel e estarem facilmente ao alcance de quem os quisesse ler.
    Fiquei curiosa com o livro.

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