TENHO INVEJA DO MEU COMPUTADOR

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Em casa tenho um computador que já tem alguma idade. É de 2007. O coitado andava nos últimos tempos a arrastar-se de uma forma desesperante. Na passada 6.ª feira resolvi fazer nuke n’ pave.

Uma das coisas de que gosto neste computador é do écran. Tem uma boa imagem e um bom tamanho. Gosto de ver filmes nele. Já há uns tempos que andava com a ideia de o transformar numa espécie de centro de entretenimento. Para trabalhar tenho o portátil. Este deveria ser só para filmes e música e para, eventualmente, ir à Internet.

Assim, 6.ª feira resolvi cortar o mal pela raiz. Desliguei os periféricos e zap formatei o disco. De seguida fiz download e instalei o sistema operativo. E não instalei mais nada. Vê-se perfeitamente que até respira melhor.

Voltei a ligar os discos externos onde tenho filmes e música (e audiobooks). Vou fazer os possíveis para não instalar mais nada a não ser o estritamente necessário. Provavelmente o programa que uso para fazer backups (o SuperDuper).

E porque é que sinto inveja? Porque embora me custe muito, é isso que preciso de fazer na minha vida. As coisas que possuo pesam-me, fazem lembrar aqueles pesos que nos filmes antigos víamos os prisioneiros usar, agrilhoados aos tornozelos. O Atlas com o mundo às costas é outra imagem que me vem à cabeça.

“The things you own end up owning you.” (Chuck Palahniuk, Fight Club)

Em pequena era muito agarrada às coisas. Qualquer papelinho que me passasse pelas mãos ficava agarrado, qual post it. Entre ele e eu criavam-se laços emocionais e eu não conseguia deitá-lo fora. Ficava cheia de saudades.

Vivia rodeada de caos. Lembro-me do terror quando, tinha eu seis anos, a minha mãe ia arrumar o meu quarto. Era um drama porque ela queria deitar metade das coisas fora. E durante muitos anos fui assim, muito agarrada às coisas.

Mas há já alguns anos atrás comecei a mudar. Lembro-me de nos anos noventa pertencer a um grupo online sobre decluttering.

De vez em quando era atacada por um frenesim de me livrar de coisas. Deitava um monte delas fora, mas também não parava de trazer mais para dentro.

Depois comecei a ler livros sobre o assunto (o Clutter’s Last Stand de um autor chamado Don Aslett é um exemplo entre muitos). Recentemente li o The Life-Changing Magic of Tidying Up: The Japanese Art of Decluttering and Organizing. É, no mínimo, inspirador.

No ano passado, quando mudei de casa, apercebi-me com mais intensidade do peso que as coisas têm. São como uma espécie de âncora que nos mantém presos. Nunca gostei de me sentir presa. Gosto de mover-me livremente.

A ideia de reduzir significativamente o número de coisas que me prendem foi aumentando rapidamente. E sempre que me livro dalgumas coisas e fico com o espaço mais vazio, a sensação é sempre de leveza, de ar mais limpo. Ontem livrei-me de um saco enorme cheio de papelada por arrumar, que estava no chão do meu quarto desde a mudança. E logo de seguida arrumei a minha mesa de cabeceira. Dormi muito melhor.

Estou resolvida a continuar a livrar-me do maior número de coisas possível. O que mais me custa são os livros. É sempre o mesmo. Mas vão levar um corte substancial.

O meu ideal é poder mudar-me sempre que quiser com o mínimo de incómodo possível. Além do que a ideia de viver rodeada unicamente daquilo de que gosto muito é muito atraente.

Lembro-me que no segundo ano do curso do Ramo Educacional da FLUL, no seminário de Didáctica do Português, a professora falava muito da importância dos espaços brancos num livro. Quando fazíamos as nossas críticas de antologias e manuais escolares, comecei a apreciar esses espaços em branco. Talvez por isso serem poucos os manuais de que gosto. Todos sofrem de demasiada “ocupação do espaço.”

E chego à conclusão que uma das coisas que sempre me atraiu no estúdio de dança (tive aulas de ballet quando era novinha) é essa sensação de espaço vazio, onde todos os movimentos são possíveis.