Minimal: o segundo M

A tower of used books

Já há muito que a ideia do minimalismo me atrai. Já referi aqui que não gosto de ter amarras, gosto de me sentir livre. A ideia de poder pegar na trouxa e saltitar de uma lado para o outro sem grande incómodo sempre me atraiu.

Este ano resolvi que um dos meus temas seria o minimalismo. A minha intenção era a de reduzir consideravelmente as coisas que acho essenciais. Já no ano passado, quando mudei de casa (Outubro de 2013), eliminei muitas coisas. No entanto, ainda tenho muitas outras coisas que, embora goste delas, terei que abandonar.

E o problema está aí. É que eu gosto das coisas que tenho!

Nova mudança

Entretanto surgiu um novo dado a acrescentar a este tema: em Junho deste ano vou ter que mudar de casa. Até agora tenho partilhado uma casa. Não é uma situação que me agrade, mas muito conveniente no aspecto económico. Sempre quis tornar-me independente e mudar-me para uma casa só para mim (e o meu filho, claro). Como a pessoa com quem partilhava a casa se vai mudar, surgiu a oportunidade de arranjar um reino próprio.

A ideia entusiasma-me imenso, mas a altura não é a ideal. Tenho pouco tempo para conseguir arranjar um poiso que consiga suportar. O mais provável é ter que arranjar uma situação provisória até poder arranjar outra mais adequada.

De qualquer forma, uma coisa é certa: tenho que eliminar muitos dos meus pertences. Uma oportunidade forçada de pôr em prática o segundo M!

Livros

Comecemos pelos livros. Este é um dos maiores obstáculos que tenho que ultrapassar.

Eu adoro os meus livros: livros de cozinha, livros de tricot/crochet/costura e toda a espécie de artes manuais, livros técnicos (muitos relacionados com o ensino do inglês), livros teóricos sobre tudo e mais alguma coisa, literatura clássica e moderna, etc., etc.

Nos últimos anos devo ter dado mais de metade dos livros que tinha. E no entanto, continuo com uma infinidade deles. E embora eu os aprecie imenso e seja com uma autêntica dor que os deixo, a verdade é que me fazem mais mal do que bem.

Só o facto de pensar em separar-me deles me deixa paralisada. Há ano e meio que tenho os livros todos desarrumados porque me custa horrores ter que os escolher e deitar fora. Mas só isto me demonstra uma coisa: não lhes toco há ano e meio. Não os leio, não os folheio, não os uso. E esta situação manter-se-á indefinidamente se não tomar uma medida drástica.

Por vezes penso que teria a vida facilitada se vivesse num país de língua inglesa. É que 99% dos livros que tenho são em inglês e por isso não os encontro nas nossas bibliotecas. Seria mais fácil para mim abandonar os meus livros se fosse fácil encontrá-los numa biblioteca. Mas não é este o caso e por isso estou neste impasse.

Há uns dias atrás tomei a seguinte decisão: tenho uma estante com gavetas, secretária e duas prateleiras (três, se contarmos com o topo). Decidi que todos os livros com que ficar têm que caber nesta estante. Não entram para aqui os livros de tricot/crochet que têm uma estante dedicada. Vai ser bastante difícil o processo de eliminação.

Tenho alguma pena de não ter tempo para vender alguns dos livros que tenho. São óptimos e algumas pessoas haveriam de gostar de ficar com eles. Mas o trabalho que envolveria pô-los à venda é proibitivo.

Começar

Tem que ser, tenho que começar. Decidi que esta semana e a próxima vou dedicar-me aos livros. Daqui a duas semanas darei notícias do status quo. Espero estar mais leve e poder passar a outra área deste segundo M.

De volta ao primeiro M

Mind

Pensei começar por escrever mais sobre o primeiro ponto: mindful.

Ser mindful é em primeiro lugar viver com intencionalidade.

O tempo foge

Todos nós nos queixamos de que o tempo corre depressa de mais. A mim sempre me fez muita impressão esta pressa. Sempre senti que, em vez de viver, a vida passava por mim e eu estava a ser vivida.

Ser mindful é uma forma de tomar as rédeas e passar a ter um papel activo em vez de passivo. É também uma forma de travar o tempo.

Lembro-me do desespero do dia 26 de Dezembro quando era criança. Faltava tanto para o Natal! Parece-me que em criança vivemos mais no tempo presente e por isso abrandamos a passagem do tempo. Cabe mais vida em cada momento, em suma vivemos mais.

Na idade adulta tem-se a tendência de olhar para trás e estar constantemente a viver no passado, de uma forma saudosista. Em igual medida vivemos a olhar para a frente, a pensar no futuro. Raramente olhamos para o agora, raramente vivemos no presente. E paradoxalmente o presente é o único momento em que podemos viver.

Travar o tempo

Mas o que fazer para viver mais? Para poder aproveitar e saborear cada momento há várias coisas que podemos fazer. Em primeiro lugar há que retomar as rédeas e tornarmo-nos donos do nosso tempo. No livro De Brevitate Vitæ (Sobre a brevidade da vida), Séneca refere que somos muito pouco cuidadosos com o nosso tempo e de uma forma descuidada deixamo-nos roubar como se o tempo fosse infinito. E no entanto é o bem mais precioso e limitado que temos.

Para tomarmos as rédeas temos que saber eliminar tudo o que está a mais e nos rouba tempo. Isto está interligado com o segundo M, minimal.

Ao eliminarmos o desnecessário da nossa vida, em bens materiais, hábitos, pessoas, ficamos com mais tempo para nos dedicar ao que realmente importa. Ganhamos tempo para o que realmente interessa. Ao tornarmo-nos mais conscientes da importância do tempo e de como o gastamos, tornamo-nos mais cuidadosos, mais zelosos, e não permitimos que seja desbaratado, nem pelos outros nem por nós mesmos.

Literatura sobre mindfulness

Há muita coisa escrita sobre mindfulness. Está hoje em dia muito em voga, até. O seu uso na medicina foi bastante popularizado por alguns autores, entre os quais se destaca Jon Kabat-Zin como os livros Full catastrophe living: using the wisdom of your body and mind to face stress, pain, and illness, Wherever You Go, There You Are: Mindfulness Meditation in Everyday Life, Coming to Our Senses: Healing Ourselves and the World Through Mindfulness e The mindful way through depression: freeing yourself from chronic unhappiness (co-autor).

Recentemente li o livro 10% Happier, de Dan Harris, em que o autor relata as várias experiências que fez para tentar ganhar controlo da sua vida.

Outro livro que li foi The Practicing Mind, de Thomas M. Sterner. Neste livro o autor relata uma experiência muito engraçada em que aparentemente conseguiu abrandar o tempo. No seu trabalho de afinador de pianos, antes dum concerto dum pianista de renome, resolveu trabalhar com a máxima concentração e mindfulness, fazendo cada movimento com precisão e vagar. Julgou que por isso teria demorado muito mais tempo do que o habitual, mas acabou por descobrir que pelo contrário tinha demorado muito menos!

Um autor que tem muitos livros escritos sobre o assunto e que vale a pena ler é Thich Nhat Hanh.

Meditação

Uma das práticas mais comuns para treinarmos o nosso cérebro para ser mais mindful é o da meditação. Nunca gostei deste nome porque para mim meditar é de certa forma concentrarmo-nos em algo, reflectir, pensar. A prática de meditação não é para isso. É mais para nos treinarmos simplesmente a parar, a estar no momento presente, a ser.

Há muita coisa escrita sobre o assunto e diversos estudos demonstram como esta prática altera algumas zonas do cérebro relacionadas com a capacidade de aprender, a memória, a regulação das emoções, o conceito de EU, a capacidade de pôr em perspectiva.

Em resumo, a prática da meditação pode aumentar o bem-estar e a qualidade de vida.

 

Este ano

3M_Logo

Não, isto não é uma publicidade à empresa que nos fornece, entre outros produtos, o famoso Scotch Brite. Como escrevi há algum tempo, o meu ano começa a 23 de Setembro e em cada ano novo eu faço, como é usual, a minha lista de resoluções. Mas este ano adoptei uma táctica diferente.

Temas

Este ano, em vez de tomar resoluções, resolvi escolher três (porque sim) temas, ou focos, ou ideias, nos quais me vou concentrar.
Os temas que escolhi foram:

  • Mindfulness
  • Minimalism
  • Money

A culpa de estarem em inglês é da primeira palavra. Não consigo arranjar uma boa tradução em português. Não consigo transmitir a mesma ideia.
Talvez por ler muito, quase exclusivamente, em inglês, há muitas palavras para as quais não consigo encontrar equivalentes em português. Mindfulness é uma delas.

Awareness

Outra palavra que está de certa forma relacionada com mindfulness é awareness. Talvez possamos traduzir esta por consciência. Mas não me faz sentir o mesmo.

Tenho estado a ler o livro The Power of Habit. Entre muitas coisas, fala da importância de tomarmos consciência (ugh!) dos nossos maus hábitos, caso os queiramos modificar. Isto é, o primeiro passo é trazer para a consciência o hábito que queremos eliminar. Os hábitos são automáticos, o que é bom. O cérebro não perde tempo nem energia com eles. Mas se quisermos eliminar ou alterar um hábito, temos que pôr a nossa consciência ao corrente da situação.

O que é interessante é que muitas vezes só este passo faz com que o hábito se comece a alterar. Por exemplo, as pessoas que querem perder peso e que começam a registar tudo o que comem por vezes começam a emagrecer mesmo antes de alterarem o seu regime, só pelo simples facto de fazerem o registo.

Há alguns bons hábitos que eu gostaria de adquirir em detrimento de outros tantos que gostaria de deixar. Mas terei que começar por ser mais mindful.