Uma amostra

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Hoje queria escrever sobre a palavra que aprendi ontem: multipotentialite. Acho que me retrata completamente. São tantas as coisas que me atraem que talvez por forma a equilibrar-me eu me sinta tão atraída pelo minimalismo e a palavra FOCUS. Esta vai ser a palavra da Primavera. Tenho que fazer um spread no meu bullet journal com a palavra no centro.
Depois vêm as contradições: adoro escrever no computador mas adoro cadernos e canetas; adoro viajar mas adoro estar em casa; gosto de filmes, séries, ler tanto literatura clássica, ficção moderna, fantasia e ficção científica, não ficção, coisas leves, coisas pesadas; adoro aprender e estudar na maior parte das áreas das ciências e das artes, sou curiosa e gosto de explorar as coisas em profundidade; gostava de saber todas as línguas do mundo, preciso de mais tempo para estudar; gostava de aprender danças de salão (clássicas) e gostava de aprender a tocar piano; adoro audiobooks; gosto de podcasts sobre uma imensidade de temas; gosto de artes manuais, sobretudo na área dos têxteis. Este ano quero aprender a costurar. O tricot é aquilo que eu gosto mais. Adoro planear e talvez por ter tantos gostos, tantos interesses, gosto de tudo o que tem a ver com produtividade. Gosto de dar aulas, gosto de aprender o mais possível sobre como ensinar melhor o inglês. Gosto de cozinhar e das lides domésticas em geral. Gosto de ser eficiente nestas. Gosto de ter poucas coisas, mas todos estes interesses tornam necessário ter coisas, mas são coisas que me dão prazer. No entanto, tenho uma luta constante para não adquirir coisas a mais. Vou continuar a reduzir todas as minhas posses, até para ter lugar para coisas que uso mais e para coisas novas que quero experimentar. Adoro livros mas agora só compro audiobooks e e-books por causa do espaço que ocupam. Também deixei de comprar DVDs, salvo raras excepções. Compro filmes no iTunes. Adoro kitchen gadgets mas reduzi-os em mais de dois terços. Não gosto de âncoras, nem de coisas que me prendam. Mas estou sempre a descobrir tachos e panelas que me atraem. No outro dia vi uma frigideira de terracota que me atraíu imenso. Vou ter que me livrar de uma frigideira que tenho para poder comprar aquela. Acho que já sei qual vai ser a vítima. Todos estes interesses fazem com que sinta uma grande pressão com a falta de tempo para prosseguir tudo o que gosto de fazer. Por vezes exaspero, depois começo a planear. Adoro planear. Viagens, conhecer países e espaços novos. Uma vez que nos próximos tempos não o posso fazer, pois vou ter que me endireitar dos vários rombos financeiros mais recentes, resolvi que vou estudar a fundo um país por cada estação. Nesta Primavera vai ser a Escócia. Como, quando tinha 5 anos, decidi que era o meu lugar favorito e eu sou normalmente de ideias fixas, vou começar por aí. Tenho um daqueles livros da Dorling Kindersley com muitas indicações turísticas. Vou lê-lo de fio a pavio, vou também ler sobre a história e a língua do país, vou ler literatura clássica e moderna também. Vou tricotar o mais possível com lãs escocesas. Tenho algumas, mas poucas. Bom, o mais difícil vai ser conjugar tudo isto com as outras coisas todas de que gosto. Enfim, tenho que escolher filmes e coisas do género também passados na Escócia. Vai ser uma Primavera divertida.

Isto é uma amostra do chamado stream of consciousness que todas as manhãs tenho que despejar no papel e no computador para poder sobreviver no dia a dia. Quando não o faço, o dia não corre nada bem.
Eu disse uma amostra… A extensão é muito maior, e o caos também. Escrevo sem parágrafos e com uma pontuação muitas vezes arbitrária, numa mistura de português e inglês, mas tenho que escrever. Corro o risco da cabeça explodir e, pior, atingir os que me rodeiam se não o fizer.

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Minimal: o segundo M

A tower of used books

Já há muito que a ideia do minimalismo me atrai. Já referi aqui que não gosto de ter amarras, gosto de me sentir livre. A ideia de poder pegar na trouxa e saltitar de uma lado para o outro sem grande incómodo sempre me atraiu.

Este ano resolvi que um dos meus temas seria o minimalismo. A minha intenção era a de reduzir consideravelmente as coisas que acho essenciais. Já no ano passado, quando mudei de casa (Outubro de 2013), eliminei muitas coisas. No entanto, ainda tenho muitas outras coisas que, embora goste delas, terei que abandonar.

E o problema está aí. É que eu gosto das coisas que tenho!

Nova mudança

Entretanto surgiu um novo dado a acrescentar a este tema: em Junho deste ano vou ter que mudar de casa. Até agora tenho partilhado uma casa. Não é uma situação que me agrade, mas muito conveniente no aspecto económico. Sempre quis tornar-me independente e mudar-me para uma casa só para mim (e o meu filho, claro). Como a pessoa com quem partilhava a casa se vai mudar, surgiu a oportunidade de arranjar um reino próprio.

A ideia entusiasma-me imenso, mas a altura não é a ideal. Tenho pouco tempo para conseguir arranjar um poiso que consiga suportar. O mais provável é ter que arranjar uma situação provisória até poder arranjar outra mais adequada.

De qualquer forma, uma coisa é certa: tenho que eliminar muitos dos meus pertences. Uma oportunidade forçada de pôr em prática o segundo M!

Livros

Comecemos pelos livros. Este é um dos maiores obstáculos que tenho que ultrapassar.

Eu adoro os meus livros: livros de cozinha, livros de tricot/crochet/costura e toda a espécie de artes manuais, livros técnicos (muitos relacionados com o ensino do inglês), livros teóricos sobre tudo e mais alguma coisa, literatura clássica e moderna, etc., etc.

Nos últimos anos devo ter dado mais de metade dos livros que tinha. E no entanto, continuo com uma infinidade deles. E embora eu os aprecie imenso e seja com uma autêntica dor que os deixo, a verdade é que me fazem mais mal do que bem.

Só o facto de pensar em separar-me deles me deixa paralisada. Há ano e meio que tenho os livros todos desarrumados porque me custa horrores ter que os escolher e deitar fora. Mas só isto me demonstra uma coisa: não lhes toco há ano e meio. Não os leio, não os folheio, não os uso. E esta situação manter-se-á indefinidamente se não tomar uma medida drástica.

Por vezes penso que teria a vida facilitada se vivesse num país de língua inglesa. É que 99% dos livros que tenho são em inglês e por isso não os encontro nas nossas bibliotecas. Seria mais fácil para mim abandonar os meus livros se fosse fácil encontrá-los numa biblioteca. Mas não é este o caso e por isso estou neste impasse.

Há uns dias atrás tomei a seguinte decisão: tenho uma estante com gavetas, secretária e duas prateleiras (três, se contarmos com o topo). Decidi que todos os livros com que ficar têm que caber nesta estante. Não entram para aqui os livros de tricot/crochet que têm uma estante dedicada. Vai ser bastante difícil o processo de eliminação.

Tenho alguma pena de não ter tempo para vender alguns dos livros que tenho. São óptimos e algumas pessoas haveriam de gostar de ficar com eles. Mas o trabalho que envolveria pô-los à venda é proibitivo.

Começar

Tem que ser, tenho que começar. Decidi que esta semana e a próxima vou dedicar-me aos livros. Daqui a duas semanas darei notícias do status quo. Espero estar mais leve e poder passar a outra área deste segundo M.

TENHO INVEJA DO MEU COMPUTADOR

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Em casa tenho um computador que já tem alguma idade. É de 2007. O coitado andava nos últimos tempos a arrastar-se de uma forma desesperante. Na passada 6.ª feira resolvi fazer nuke n’ pave.

Uma das coisas de que gosto neste computador é do écran. Tem uma boa imagem e um bom tamanho. Gosto de ver filmes nele. Já há uns tempos que andava com a ideia de o transformar numa espécie de centro de entretenimento. Para trabalhar tenho o portátil. Este deveria ser só para filmes e música e para, eventualmente, ir à Internet.

Assim, 6.ª feira resolvi cortar o mal pela raiz. Desliguei os periféricos e zap formatei o disco. De seguida fiz download e instalei o sistema operativo. E não instalei mais nada. Vê-se perfeitamente que até respira melhor.

Voltei a ligar os discos externos onde tenho filmes e música (e audiobooks). Vou fazer os possíveis para não instalar mais nada a não ser o estritamente necessário. Provavelmente o programa que uso para fazer backups (o SuperDuper).

E porque é que sinto inveja? Porque embora me custe muito, é isso que preciso de fazer na minha vida. As coisas que possuo pesam-me, fazem lembrar aqueles pesos que nos filmes antigos víamos os prisioneiros usar, agrilhoados aos tornozelos. O Atlas com o mundo às costas é outra imagem que me vem à cabeça.

“The things you own end up owning you.” (Chuck Palahniuk, Fight Club)

Em pequena era muito agarrada às coisas. Qualquer papelinho que me passasse pelas mãos ficava agarrado, qual post it. Entre ele e eu criavam-se laços emocionais e eu não conseguia deitá-lo fora. Ficava cheia de saudades.

Vivia rodeada de caos. Lembro-me do terror quando, tinha eu seis anos, a minha mãe ia arrumar o meu quarto. Era um drama porque ela queria deitar metade das coisas fora. E durante muitos anos fui assim, muito agarrada às coisas.

Mas há já alguns anos atrás comecei a mudar. Lembro-me de nos anos noventa pertencer a um grupo online sobre decluttering.

De vez em quando era atacada por um frenesim de me livrar de coisas. Deitava um monte delas fora, mas também não parava de trazer mais para dentro.

Depois comecei a ler livros sobre o assunto (o Clutter’s Last Stand de um autor chamado Don Aslett é um exemplo entre muitos). Recentemente li o The Life-Changing Magic of Tidying Up: The Japanese Art of Decluttering and Organizing. É, no mínimo, inspirador.

No ano passado, quando mudei de casa, apercebi-me com mais intensidade do peso que as coisas têm. São como uma espécie de âncora que nos mantém presos. Nunca gostei de me sentir presa. Gosto de mover-me livremente.

A ideia de reduzir significativamente o número de coisas que me prendem foi aumentando rapidamente. E sempre que me livro dalgumas coisas e fico com o espaço mais vazio, a sensação é sempre de leveza, de ar mais limpo. Ontem livrei-me de um saco enorme cheio de papelada por arrumar, que estava no chão do meu quarto desde a mudança. E logo de seguida arrumei a minha mesa de cabeceira. Dormi muito melhor.

Estou resolvida a continuar a livrar-me do maior número de coisas possível. O que mais me custa são os livros. É sempre o mesmo. Mas vão levar um corte substancial.

O meu ideal é poder mudar-me sempre que quiser com o mínimo de incómodo possível. Além do que a ideia de viver rodeada unicamente daquilo de que gosto muito é muito atraente.

Lembro-me que no segundo ano do curso do Ramo Educacional da FLUL, no seminário de Didáctica do Português, a professora falava muito da importância dos espaços brancos num livro. Quando fazíamos as nossas críticas de antologias e manuais escolares, comecei a apreciar esses espaços em branco. Talvez por isso serem poucos os manuais de que gosto. Todos sofrem de demasiada “ocupação do espaço.”

E chego à conclusão que uma das coisas que sempre me atraiu no estúdio de dança (tive aulas de ballet quando era novinha) é essa sensação de espaço vazio, onde todos os movimentos são possíveis.